Revista ÉPOCA, 6 de agosto de 2001

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BRASIL

Patrimônio sob suspeita
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Ex-porta-voz de Celso Lafer e Fernando

Henrique no Itamaraty é acusado

de comprar casa com dinheiro público
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DEFESA O embaixador diz que Cleuza, sua acusadora, quer vingança. "Abri uma sindicância contra ela por violação de correspondência"

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O embaixador do Brasil na Costa Rica, Luiz Fernando Benedini, é um pianista de renome. Aos 54 anos, já foi acompanhado por orquestras em vários países. A próxima performance está marcada para 22 de setembro. Ao lado da Sinfônica da Universidade de Miami, vai executar o " Concerto para Piano n° l" de Tchaikovsky. O convite tem dois motivos. Além de músico competente, Benedini possui fortes laços de amizade na Flórida. Cônsul-ge-ral em Miami em duas ocasiões, entre 1986 e 1991 e, depois, de 1994 a 2000, o diplomata afinou-se tanto com o clima local que decidiu adquirir imóveis na região. 

Três apartamentos e uma casa avaliados em pouco mais de US$ l milhão estão no nome dele e da esposa. A casa, no número 4.621 da Lake Road, área nobre da cidade, comprada em 1997, custou US$ 845 mil. O salário de um cônsul varia de US$ 8 mil a US$ 10 mil mensais. Há uma provável incompatibilidade entre renda e patrimônio.

Em março, o Itamaraty descobriu um quinto imóvel. A assistente de chancelaria Cleuza Martins Moreira denunciou Benedini à Corregedoria de Serviço Exterior por crime de peculato. Serviram juntos no consulado. Cleuza 

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NEGÓCIO Benedini teria comprado a casa de South West por US$ 280 mil e vendido depois por US$ 452 mil

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acusou-o de, em 1986, usar a verba de Residência Diplomática para comprar uma casa de quatro quartos em South West, bairro da elite em Miami. Esse dinheiro, pago a diplomatas em serviço fora do país, destina-se a aluguel de imóvel. Jamais a compra. "Nunca fui dono dessa casa, pagava aluguel", disse Benedini a ÉPOCA, por telefone. Cleuza sustenta que a transação, em novembro de 1997, ocorreu um mês depois de Benedini ter adquirido o imóvel da Lake Road. "Fiz um empréstimo de US$ 700 mil e ainda pago por ele", afirmou. Diplomatas de seu nível recebiam cerca de US$ 1.500 para despesas com moradia na década de 80.

O corregedor do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Luiz Villarinho, foi à Flórida investigar a denúncia. Encontrou indícios suficientes para determinar a abertura de inquérito administrativo. "A situação é séria", disse. Em 15 dias Benedini será ouvido pela corregedoria. A decisão, contudo, só será conhecida no fim do ano. Quando a acusação foi protocolada no Itamaraty, Benedini decidiu aposentar-se. Errou. Colegas consideraram a atitude um reconhecimento de culpa. Ainda teria uma década na carreira antes de sair da ati-va. A lei obrigou-o a retirar o pedido. Precisou adiar os planos até o fim do processo. Exercita a espera ao piano.

CARLOS ALBERTO JÚNIOR, DE BRASÍLIA

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